Sonetilho ao Tetra Lula: a poesia como registro de uma vitória histórica
Por Leandro Soares | @pedalandonahistoria1
A história também se escreve em versos. Em determinados momentos, a poesia ultrapassa os limites da expressão estética e se transforma em testemunho de uma época, registrando sentimentos, disputas, esperanças e acontecimentos que marcam a vida coletiva. É nesse encontro entre literatura, política e memória que se insere Sonetilho ao Tetra Lula, poema recém-publicado por Manuel de Azevedo.
O texto celebra a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, conquistada no segundo turno das eleições de 25 de outubro de 2026. Em uma disputa acirrada, Lula obteve 51,79% dos votos válidos, derrotando Flávio Bolsonaro e alcançando um feito inédito: tornar-se o primeiro presidente brasileiro eleito quatro vezes pelo voto direto.
Mais do que celebrar um resultado eleitoral, o poema procura interpretar o significado político e social dessa conquista. A seguir, reproduzimos os versos que inspiram esta reflexão.
Sonetilho ao Tetra Lula
Manuel de Azevedo
Aliança popular,
Lula tetra-presidente!
Grande exército decente,
Num feito espetacular!
Mundo inteiro a se orgulhar,
Idoso, indígena, ou discente,
Barco ou a pé, fez-se frente,
Pelo Brasil a lutar.
Contra a legião do mal:
Big-Techs, Trump, o tal,
Mercado e a imprensa fascista.
Sem dar um tiro abateu,
À corja. E à Lula elegeu...
Brava e histórica conquista!
Uma poesia de intervenção política
Ao mencionar estudantes, indígenas, idosos e trabalhadores, Manuel destaca a diversidade dos sujeitos que participaram da mobilização democrática. A vitória aparece, assim, não apenas como resultado das urnas, mas como expressão de uma sociedade atravessada por diferentes expectativas, interesses e projetos de país.
O poeta também assume abertamente sua posição política. Ao mencionar as grandes empresas de tecnologia, Donald Trump e setores da imprensa, seus versos expressam uma crítica às forças que considera adversárias de seu projeto democrático e popular. Trata-se de uma poesia de intervenção, que não esconde suas convicções e transforma o acontecimento político em matéria literária.
Manuel de Azevedo: poesia, música e memória potiguar
Natural de Santana do Matos, no Rio Grande do Norte, Manuel de Azevedo construiu uma trajetória que articula poesia, música, educação e valorização da cultura potiguar. Professor e artista versátil, sua produção transita entre diferentes formas literárias, da poesia popular às composições de maior elaboração formal.
Em obras como Retreta Poética e Breviário Ferroviário, encontramos um escritor atento às paisagens, às lembranças, aos deslocamentos e às experiências cotidianas. Sua literatura dialoga com a identidade regional sem se limitar a ela, fazendo da memória local um caminho para refletir sobre questões humanas e sociais mais amplas.
Essa trajetória torna especialmente interessante a publicação de Sonetilho ao Tetra Lula. Aqui, a palavra poética se volta diretamente para o presente, aproximando a criação literária da disputa política e da experiência democrática. O poeta não observa os acontecimentos de uma posição distante: participa deles com sua linguagem, suas escolhas e sua visão de mundo.
Quando a poesia encontra a história
O título do poema já anuncia seu caráter celebrativo. A expressão “Tetra Lula” sintetiza o significado histórico atribuído à eleição e transforma a vitória em motivo de composição poética. A forma breve do sonetilho permite condensar imagens, críticas e sentimentos em versos de tom direto e popular.
É importante lembrar que a poesia política não precisa ser neutra. Ela pode celebrar, contestar, denunciar e provocar. Seu valor também está na capacidade de revelar como determinados acontecimentos foram vividos e interpretados por quem deles participou.
Daqui a alguns anos, quando a disputa eleitoral de 2026 pertencer definitivamente ao passado, poemas como este poderão ser lidos como registros do sentimento político de uma parcela da sociedade brasileira. Não substituirão os documentos oficiais nem dispensarão a análise crítica, mas ajudarão a compreender as emoções, as esperanças e as convicções que atravessaram aquele momento.
É também essa a perspectiva do Pedalando na História: reconhecer que a memória coletiva não se constrói apenas com datas, monumentos e documentos. Ela também se alimenta de livros, canções, fotografias, poemas e narrativas que preservam as marcas de seu tempo.
Ao publicar Sonetilho ao Tetra Lula, Manuel de Azevedo reafirma a possibilidade de uma poesia comprometida com o presente, capaz de transformar a experiência política em expressão artística.
Porque a história acontece nas ruas, nas urnas e nas mobilizações populares — mas também permanece viva nas palavras daqueles que decidem registrá-la.










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