O
lançamento de um novo livro nos convida a olhar para a trajetória de uma
escritora que tem transformado histórias em pontes entre a cultura, a educação
e a memória potiguar.
Por
Leandro Soares
Existem
autores que escrevem para entreter. Outros escrevem para registrar. Há ainda
aqueles que, sem alarde, transformam a literatura em um espaço de encontro
entre pessoas, histórias e memórias. Ao observar a trajetória da escritora e
cordelista Jussiara Soares, é impossível não perceber essa última vocação.
O
lançamento de A Árvore e a Formiguinha, sua mais recente obra infantil,
oferece uma oportunidade especial para revisitar uma caminhada construída ao
longo dos anos com sensibilidade, compromisso cultural e amor pelas palavras.
Mais do que celebrar um novo livro, é um momento para reconhecer uma autora que
vem contribuindo para a valorização da literatura e da cultura popular no Rio
Grande do Norte.
Natural
de Areia Branca e formada em Pedagogia, Jussiara encontrou na escrita uma forma
de dialogar com o mundo. Mas sua literatura não nasceu apenas da vontade de
contar histórias. Ela parece surgir de algo mais profundo: o desejo de
preservar aquilo que merece ser lembrado.
Talvez
por isso sua produção transite com tanta naturalidade entre a infância, a
memória, a identidade cultural e a valorização de personagens que, muitas
vezes, permanecem fora dos grandes registros históricos.
Ao
longo dos anos, sua atuação esteve ligada a importantes espaços de promoção da
literatura, entre eles a Casa do Cordel, a Sociedade dos Poetas Vivos e Afins
do Rio Grande do Norte (SPVARN), a Associação Literária e Artística de Mulheres
Potiguares (ALAMP) e o grupo Encantadores de Histórias de Extremoz. Mais do que
vínculos institucionais, esses espaços ajudaram a moldar uma autora
comprometida com a circulação das histórias e com a formação de leitores.
A
experiência acumulada na Casa do Cordel, onde atuou durante anos na coordenação
de projetos culturais, contribuiu para ampliar sua compreensão sobre o papel
social da literatura. Não se trata apenas de publicar livros, mas de criar
oportunidades para que a palavra alcance pessoas, desperte curiosidades e
fortaleça identidades.
O
reconhecimento desse trabalho também se manifestou em espaços institucionais.
Em 2016, por ocasião das celebrações do Dia do Cordelista, Jussiara Soares
recebeu homenagem na Câmara Municipal de Natal, em solenidade conduzida pela
vereadora Amanda Gurgel. Mais do que uma distinção individual, a homenagem
representou o reconhecimento de uma trajetória já marcada pelo compromisso com
a literatura popular, a cultura potiguar e a valorização do cordel como
expressão artística e educativa.
Essa
preocupação aparece de maneira recorrente em sua obra.
Quando
participou da coleção Dez Mulheres Potiguares, por exemplo, Jussiara
ajudou a lançar luz sobre trajetórias femininas que contribuíram para a
construção histórica e cultural do estado. Mais do que narrar biografias, seu
trabalho colaborou para que essas mulheres continuassem presentes na memória
coletiva.
Foi
nesse contexto que produziu o cordel dedicado à poetisa extremozense Áurea de
Góis, tornando-se a primeira autora a registrar sua trajetória nesse formato
literário. O gesto possui um significado que vai além da homenagem individual.
Trata-se de um ato de preservação da memória cultural, especialmente em tempos
em que tantas histórias correm o risco de serem esquecidas.
O mesmo pode ser dito de seu trabalho sobre a Viúva Machado, outra personagem feminina que encontrou na literatura um caminho para permanecer viva no imaginário potiguar.
Ao observar essas escolhas, percebe-se um traço marcante da escrita de Jussiara: sua atenção às histórias que merecem ser contadas. Mas sua contribuição não se limita ao passado.
Em
obras voltadas ao público infantil, a autora demonstra igual preocupação com os
desafios do presente. Em O Presente, seu primeiro livro solo, abordou
com sensibilidade questões relacionadas ao preconceito racial, à autoestima e à
valorização da identidade negra. A repercussão da obra junto a educadores e
leitores revela a força de uma literatura que não abre mão da delicadeza, mas
também não se afasta dos temas essenciais à formação humana.
Talvez
resida aí uma das características mais bonitas de sua produção: a capacidade de
unir encantamento e reflexão.
Suas histórias não procuram apenas transmitir mensagens. Elas convidam crianças e adultos a enxergar o mundo com mais empatia, respeito e sensibilidade. Não por acaso, suas obras vêm sendo trabalhadas em escolas e projetos de leitura. Nesse diálogo constante com a educação, a literatura deixa de ser apenas entretenimento e assume seu papel de instrumento de formação cidadã.
A
mesma autora que escreve para crianças também dedica atenção às tradições
culturais do estado. Sua participação em eventos literários, congressos de
cordelistas e apresentações voltadas à divulgação das lendas potiguares
demonstra um compromisso permanente com a valorização do patrimônio cultural
imaterial do Rio Grande do Norte.
Ao reunir todos esses elementos, torna-se difícil enquadrar Jussiara Soares em uma única definição. Ela é cordelista, poeta, escritora e educadora. Mas talvez essas palavras, isoladamente, não consigam traduzir o alcance de sua contribuição.
O
que sua trajetória revela é a presença de alguém que compreendeu o poder das
histórias. Histórias capazes de preservar memórias, fortalecer identidades,
combater preconceitos, valorizar mulheres, despertar leitores e aproximar
gerações.
Em
uma época marcada pela velocidade da informação e pelo esquecimento cada vez
mais rápido das experiências coletivas, autores como Jussiara nos lembram que
recordar também é um ato de cuidado.
Seu novo livro, A Árvore e a Formiguinha, chega como mais um fruto dessa caminhada. Não representa um ponto de chegada, mas a continuidade de uma obra construída com paciência, sensibilidade e dedicação.
Ao
registrar sua trajetória, esta homenagem reconhece não apenas os livros
publicados ou os projetos realizados. Reconhece, sobretudo, a importância de
uma escritora que tem colocado sua arte a serviço da memória, da educação e da
cultura.
Porque algumas pessoas escrevem histórias. Outras ajudam uma comunidade a não esquecer as suas.





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