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sexta-feira, 19 de agosto de 2022

BASTIDORES DA EXPEDIÇÃO NA FERROVIA FANTASMA EM LAJES-RN

 


Será possível se orientar por uma trilha em meio a caatinga apenas com a ajuda do aplicativo Strava e por alguns vídeos de quem já fez a trilha anteriormente? Não sei a sua resposta, mas acreditei que sim e deu errado. De repente me vejo perdido e procurando um sinal de celular para pedir ajuda. A técnica de amarrar sacolas de supermercado pelo caminho e não errar a volta, não funcionou rs. 

Em algum lugar em meio a região localizada entre os municípios de Lajes, Angicos e Fernando Pedroza existe um túnel ferroviário abandonado com mais de cem anos de história. 

O acesso se dá pelo município de Lajes, situado na mesorregião central potiguar. O local tem relevo formado pelo planalto da borborema, uma vegetação de caatinga e clima semiárido quente. A região tem um dos menores índices pluviométricos do estado e integra o chamado polígono das secas. 

Sobre o túnel é possível conferir toda sua história e o contexto da sua construção no programa Conversando com Augusto Maranhão – A Estrada de Ferro Inacabada. Participa do programa, também, o pesquisador Wagner Rodrigues - autor do livro Dos Caminhos da água aos caminhos de Ferro, o livro mostra toda a riqueza da história ferroviária potiguar. Disponível no YouTube pelo link a seguir;



Há alguns meses vinha planejando uma expedição de bike com alguns parceiros de aventura, aqui de Extremoz, para conhecer e explorar o local. Após realizar algumas pesquisas e ver documentários sobre o local, a vontade de desbravar a região só aumentava. Após alguns cancelamentos e adiamentos, finalmente o pedal foi marcado para ocorrer no início de agosto deste ano. Feito todos os preparativos, o plano era irmos de bicicleta até Lajes e voltar de ônibus intermunicipal - torcendo para não haver problema em transportar as bikes na mala do ônibus, pois algumas empresas, simplesmente, não aceitam levar. 

O próximo passo foi estabelecer contato com alguém, de Lajes, que conhecesse a trilha do túnel abandonado, que fica a quase vinte quilômetros do centro da cidade e, pudesse nos ajudar a encontrar o local com segurança. Falamos com Cícero do grupo “Cabugi Bike Trilha” que se colocou à disposição para nos acompanhar nessa aventura pelo sertão. Marcamos o encontro com o grupo para o sábado dia 13 de agosto. 

Mas como diz o ditado popular “na prática a teoria é outra”. No dia em que estava marcada a aventura para a ferrovia fantasma fui avisado que os dois parceiros que iriam me acompanhar na expedição não poderiam ir por questões de trabalho e de saúde. Infelizmente imprevistos fazem parte e não podemos fazer nada a respeito. Me solidarizei com os colegas e decidi seguir a plano pois não dava para controlar a ansiedade. A viagem ficou para domingo dia 14. pedi dicas de como chegar ao túnel pois o grupo que ia nos acompanhar não poderia ir no domingo em função de outro compromisso. O parceiro Cicero, de Lajes, mandou vídeos com algumas indicações do caminho para seguir a trilha até o túnel. Agora com algumas indicações da trilha existia alguma chance (pequena rs) de chegar ao local.

O caminho que havia sido traçado com o grupo foi mantido. Decidimos seguir por Cearamirim, passando por Ielmo Marinho, Santa Maria até acessar a BR 304, passando por Riachuelo até Lajes. Com saída de Extremoz, por volta das quatro horas da manhã, a previsão (ou, pelo menos, o desejo) de chegar em Lajes era até meio-dia. A terra dos verdes canaviais e a terra do abacaxi serviram de companhia durante o nascer do sol. 

Se engana quem acha que pedalar sozinho é uma atividade solitária. Como solitária? Temos a natureza, temos o vento, diversas vegetações e climas pelo caminho, temos o sol, a lua, as pessoas que encontramos no trajeto, amizades são constituídas e histórias construídas. O importante é guardar com carinho as memórias de cada experiência vivenciada, as boas e, principalmente, as ruins, pois nelas estão os grandes aprendizados.

Chegando em Lajes, quase às duas horas da tarde, bem além do programado e percorridos os primeiros 130km (ainda faltavam os 30km da trilha), falei com o funcionário do posto de gasolina, Valfran, sobre os horários dos ônibus para Natal naquele dia e, fui informado que só tinha um único ônibus da Cabral, por volta das 17h30. Essa era a melhor opção por garantir o transporte da bike e me deixar na zona norte, pertinho de Extremoz. Iniciava a corrida contra o tempo. 


Passei rapidamente pelo centro de Lajes, almocei (comida simples e saborosa) sem perder tempo e fui seguir as indicações dos vídeos que o parceiro Cícero tinha enviado. Chegando na entrada da trilha, bastava pedalar uns 18km (na direção certa) que chegaria ao destino com tempo suficiente para pegar o ônibus para Natal. O momento crítico foi quando já havia pedalado quase 20km e não acertava a entrada da trilha indicada nos vídeos. Já passavam das 15h e nada. Telefone sem sinal, não tinha como pedir apoio. Próximo ao local está  sendo construído um parque eólico com muitas estradas e bifurcações em construção, onde é fácil se perder para quem não é da região. Tinha colocado algumas sacolas de supermercado nas bifurcações que encontrava para sinalizar o caminho de volta. Mas, encontrar a trilha para o túnel estava cada vez mais difícil e fora de cogitação. 

* A estratégia de colocar sacolas de supermercado, deu errado. kkkk

Sem esperança de chegar ao túnel naquele dia, consegui voltar à entrada da BR, graças às sacolas e o medo de perder o ônibus. Finalmente, consegui mandar uma mensagem para o parceiro Cícero que, gentilmente e, apesar do avançado da hora, mandou um colega do grupo Cabugi Bike Trilha, de moto, para me levar até o túnel. Em poucos minutos, na entrada da BR, surge o brother que salvou toda a aventura. O parceiro, João Batista, mais conhecido como Saci. Já se aproximava das 16h quando saímos em direção a trilha do túnel. Chegando lá, ele mostrou o local, alguns pontilhões abandonados (no mesmo estilo da ponte de ferro do Igapó, em Natal) e revelou que na verdade existem, não um, mas três túneis abandonados. Não tenho palavras para agradecer a essa dupla incrível que, literalmente,  salvou o dia e toda a aventura.  Pena que não deu para ficar mais tempo no local, mas já ficou o convite para a turma de Extremoz se organizar e voltar para conhecer a trilha do túnel, desta vez com mais calma e tempo. Vou deixar o link do grupo Cabugi Bike Trilha no Facebook e recomendo entrar em contato com essa turma nas próximas expedições pela terra do Cabugi. https://www.facebook.com/cabugibiketrilha/photos/?ref=page_internal 


* Meu parceiro, Saci, salvando a aventura

Terminamos a expedição já passando das 17h. Tinha deixado a bike com uma moradora local. Cheguei no terminal rodoviário faltando poucos minutos para o ônibus passar. Ainda bem que ele atrasou um pouco. Embarcamos (eu e a Bike) quase às 18h no expresso Cabral com destino a zona norte de natal via João Câmara. Após umas duas horas de viagem com algumas paradas pelo caminho, chegamos em casa, por volta das 21h.

*Rodoviária de João Câmara, voltando pra casa.

 Para quem busca mais informações sobre o túnel, indico o blog do historiador "Cícero Lajes” que desenvolve um importante trabalho de turismo, história e cultura no município. Essa e outras trilhas como a da Serra do Feiticeiro e o Pico do Cabugi são atividades que o grupo de Cícero, Cabugi Bike Trilha, conduz com segurança, seja a pé ou de Bike, indico seu trabalho para os que curtem aventuras, fortes emoções  e um contato direto com a natureza. 



domingo, 30 de maio de 2021

SERRA DA TAPUIA: PEDALANDO DE EXTREMOZ ATÉ O CASTELO ZÉ DOS MONTES

 

*Castelo Zé dos Montes em Sítio Novo - Foto: Canindé Soares

Acredito que o Ciclismo, a História e a Natureza podem ser faces da mesma moeda. Uma grande atração em meio ao Agreste Potiguar, sem dúvida, é o famoso Castelo Zé dos Montes, construído por volta de 1984. Pouco antes da pandemia resolvemos (grupo de 5 ciclistas) conhecer o Castelo de bicicleta no “bate e volta”. Foram 235km percorridos de Bike, durante quase 18 horas, e passando por, pelo menos, 10 cidades (Extremoz, São Gonçalo do Amarante, Macaíba, Bom Jesus, Serra Caiada, Tangará, Sítio Novo, Lagoa de Velhos, São Paulo do Potengi e São Pedro). Uma aventura e algumas situações inusitadas. Entre elas, vale destacar que, alguns atalhos podem não ter iluminação à noite, ou ainda, cachorros podem te perseguir em meio a escuridão, ao passar pelos sítios e fazendas da região. Acredite, pior que levar uma carreira dos cachorros, é levar essa carreira no escuro (rs). Agora parece engraçado, mas na hora não foi nem um pouco.

 

SAINDO DE EXTREMOZ

Finalmente conseguimos tirar do papel o projeto de uma pequena aventura que há tempo planejávamos, e que agora se efetivava. Escolhemos ir numa segunda-feira, dia 13 de janeiro, pois a data funcionava para o grupo. Compartilho, aqui, breve resumo dessa experiência. Itens de segurança, 3 câmaras de ar reserva, pneus devidamente calibrados, alguns trocados no bolso para o lanche/almoço e vamos embora. Saímos de Extremoz por volta de 3h30 da matina. Vale salientar que era a minha primeira viagem de Bike acima dos 200km. Segue o desafio. Olhando no Google Maps é sempre mais perto e mais rápido que na vida real. As estimativas nunca batem, pelo menos comigo. O fato de não pedalar muito rápido pode explicar em parte o “problema”.

O ar fresco da lagoa de Extremoz avisava ao corpo que a “expedição” havia começado. Depois de alguns meses planejando e de alguns cancelamentos, finalmente estávamos a caminho do famoso Castelo Zé dos Montes, localizado no alto da Serra da Tapuia. A serra tem 400 metros de altitude e está situada no município de Sítio Novo, distante cerca de 240 km (ida e volta) da terra do grude. Após encontrar com o colega de pedal, Nivaldo, pelo centro da cidade, saímos em direção ao “Gancho de Igapó” ao encontro de mais dois colegas, “China” e Júnior (Italiano), ambos da Zona Norte. A empolgação típica do início das pedalas já estava presente no rosto de todos.  Assim, seguimos para encontrar com o último parceiro, Joel, de Macaíba. O sol já estava querendo dar o ar de sua graça quando todos nos encontramos em Macaíba, terra do museu Solar Ferreiro Torto – importante marco histórico do nosso estado. Tombado pela fundação José Augusto, o Solar remonta ao ano de 1614 e foi, de acordo com relatos históricos, o segundo Engenho de Cana de Açúcar da capitania do Rio Grande. Fica próximo ao centro de Macaíba e vale muito a pena a visita com toda a família. Entrada é gratuita.

                      *O imponente Solar Ferreiro Torto, em Macaíba (Foto: Raphael Luiz/Fotec)


Grupo reunido, pela frente ainda tínhamos cerca de 200km e um sol que podia chegar a 35º com sensação térmica de mais de 40º. Saímos pela Reta Tabajara, que para variar estava em obras, e seguimos pela BR-226, que por sinal tem um bom acostamento – permitindo uma pedalada em segurança. Próxima parada, ainda antes das 7h, foi em um local chamado, Ponto do Café em Cajazeiras – e tome tapioca com café, pois o almoço ainda ia demorar, apenas, em cima da Serra. Já tínhamos entrado em contato com o administrador do Castelo, Joseildo, filho do senhor Zé dos Montes, que nos aguardava. José Antônio Barreto (Zé dos Montes) infelizmente viria a falecer, aos 88 anos, 6 meses após a nossa visita. A previsão era chegarmos no Castelo antes das 12h (meio dia). Percebemos que já estávamos atrasando quando, por volta das 11h, ainda nem havíamos chegado em Tangará (última cidade antes de Sítio Novo). Verdade que, antes, entre Bom Jesus e Serra Caída tivemos alguns pneus furados, o que acabou atrasando um pouco.

BOM JESUS

Conhecido antigamente pelo nome de “Panelas” (em função da produção de panelas de barro) a cidade de Bom Jesus, segundo consta na monografia “Bom Jesus: origem e emancipação” escrita por, Nóbrega, em 2003, a cidade teria mudado de nome por interferência de Frei Damião durante uma de suas missões no município. Na ocasião, teria dito que o nome “Panelas” não seria adequado, pois as panelas acabam em cacos. Recebendo, assim, em 1936 o nome de Bom Jesus. O Grupo seguia animado.

 

SERRA CAIADA

Aproveitamos para dar uma descansada em Serra Caída e conversar com o pessoal que vendia água de coco na entrada da cidade, momento para uma respirada. Era possível sentir a brisa aconchegante desse local que vem se destacando cada vez mais em nosso estado, além do valor histórico, pelo turismo de aventura, principalmente a escalada que vem atraindo cada vez mais aventureiros do país inteiro. Vale notar que, Serra Caída, está entre os 50 melhores locais para a prática da escalada em todo o Brasil, segundo o livro “50 Vias Clássicas do Brasil” dos autores Cintia e Flávio Daflon lançado em 2017. Nosso estado é realmente privilegiado. Sem falar dos aspectos históricos, em artigo cientifico publicado pelos autores, Virgína Araújo e Ademir Costa em 2015, afirmam que a formação geológica da cidade faz parte das mais antigas do mundo. Ainda de acordo com a publicação, O geólogo Elton Dantas, realizou datação que coloca o monumento natural de Serra Caiada entre as reminiscências mais antigas da era que antecedeu a vida no planeta, perdendo em idade apenas para as rochas da África, dos rincões da Groelândia, do Canadá e da Austrália. O artigo pode ser conferido na íntegra pelo link; file:///C:/Users/usuario/Desktop/6488-Texto%20do%20artigo-18546-1-10-20150527.pdf

*Parada para respirar em Serra Caiada: Leandro, China, Júnior, Nivaldo e Joel (da esquerda para a direita).

TANGARÁ

Após essa respirada, e já se aproximando dos primeiros 100km, chegamos em Tangará. O sol estava castigando, sensação térmica de mais de 40 graus e as placas mostravam que ainda faltava em torno de 25km a serem percorridos, sendo a maior parte, subidas.  Será que alguém aproveitou a passagem para provar o famoso pastel de Tangará? Vou nem comentar (rs). Tangará se destacou no estado pela forte produção de algodão ao longo do século XX. A cidade também já foi cenário do documentário “Theodorico, o imperador do sertão”, dirigido por Eduardo Coutinho e apresentado no programa Globo Repórter em 1978. Disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=e9O0jn84Asw&t=12s

 

SÍTIO NOVO

Já estávamos pedalando por quase 12 horas e a temperatura aumentava muito. Agora, já em direção a Sítio Novo, cruzamos a barreira dos primeiros 100km (“só” faltava mais 135km até voltar para Extremoz). O clima seco e a vegetação típica do Sertão – a caatinga – se destacava na paisagem. O clima Tropical Semiárido, marcado pela escassez e pela irregularidade de chuvas mostrava toda sua hostilidade. Tínhamos ficado um pouco para trás do grupo (Eu e Nivaldo), os demais estavam um pouco adiantados. Acho que foi nessa hora que paramos e encostamos as bicicletas na primeira placa que avisava a distância restante. A água já estava chegando no final. Foram mais de 20km de calor extremo, ladeiras, pouco vento, e nem uma alma viva pelo caminho. Não lembro de termos visto um único carro na pista nesse trecho. Encontramos os colegas mais a frente tentando fotografar um Avestruz, sem sucesso.
*Nunca acredite nessas placas. Acho que ainda pedalamos mais de 1 hora para chegar na Serra da Tapuia. Foto: Leandro Soares

SERRA DA TAPUIA

Com quase 400 metros de altitude a Serra da Tapuia está situada na microrregião da Borborema potiguar e fica a uma distância de quase 10km do cento de Sítio Novo. A subida da Serra é realmente praticamente impossível de subir pedalando em função da sua forte inclinação. Aqui entre nós, quase que eu não conseguia subir nem empurrando. A bicicleta estava pesando uns “50 quilos” naquela subida de mais de 8km. Quando passou uma pequena caminhonete, subindo a serra, faltou pouco para pedir uma carona, muito pouco mesmo. Mas seguimos em frente. Aquela subida demorou uma eternidade. A cada curva, tinha outra ladeira ainda maior. Teve uma hora que coloquei a bike de lado, me sentei na parte alta da serra e tive um momento de profundo contato com a natureza. Contemplar aquela paisagem deu todo o significado a viagem e me ajudou a concluir a subida. Valeu demais pela foto, Nivaldo.

*Àquela hora que a natureza lhe recompensa todo o esforço. A vista do topo da Serra da tapuia. Foto: Nivaldo Silva

Chegamos no Castelo pouco depois das 13h. O administrador já nos aguardava, almoçamos, conversamos um pouco sobre a história do Castelo e as motivações para sua construção.  Tudo funcionou bem. Mas acredito que o atendimento poderia melhorar para aumentar o potencial turístico do local. Dentro do castelo é possível passar por vários corredores e labirintos, o local tem mais de 100 compartimentos, muitos morcegos e algumas salas escuras. A construção estaria relacionada a uma visão religiosa. Várias matérias e reportagens, até mesmo em nível nacional, já foram feitas sobre a história do Castelo. É possível saber mais nessa reportagem feita pela TV Assembleia: https://www.youtube.com/watch?v=h9yCDDo02NM

Descansamos um pouco e subimos novamente nas bikes.

*Grupo reunido no Castelo Zé dos Montes no pico da Serra da Tapuia. – Foto: Joseildo Gomes (Administrador do Castelo)

*Momento da chegada ao Castelo.

SÃO PAULO DO POTENGI

Iniciando o retorno para Extremoz, por alguma razão o grupo resolveu não retornar mais pela BR-226, e sim, por São Paulo do Potengi. Lembro que alguém sugeriu essa rota por ser um pouco mais perto, coisa de 5km, talvez. Há pouco havíamos passado por Lagoa de Velhos e seguíamos em direção a próxima cidade, São Paulo do Potengi. Procurávamos aproveitar ao máximo os últimos raios de sol. O problema é que não tínhamos considerado a falta de iluminação na RN-203. Quando passamos por São Paulo do Potengi o sol já estava se pondo. Em fração de segundos a noite chegou e, era uma penumbra que não conseguíamos enxergar um ao outro. Todos havíamos levado iluminação noturna, mas, as pilhas não aguentaram muito. Lembro que a minha lanterna foi a primeira a falhar e rapidamente apagou. Júnior, tinha uma luz azul muito potente, mas também não durou muito. Nivaldo também não deu muita sorte. A nossa salvação foi o parceiro Joel que tinha uma lanterna muito forte e dava para iluminar, razoavelmente, bem. Assim, o grupo todo procurava se guiar pela luz dele. Mas não era fácil. Quem ficava mais atrás, não via quase nada. Era um breu danado.

Pelo menos, para min, esse foi o trecho mais dramático. A pista tinha muitas descidas e precisava descer em uma velocidade razoável, sem ver nada, absolutamente, nada. O momento mais “tenso” e, agora, “engraçado”, foi quando escutamos uns latidos distante, devia vir de algum sitio ou fazenda por perto, os latidos ficaram cada vez mais perto e de repente alguém grita – “senti um cachorro aqui na minha perna! ” Eu não sei quem gritou, mas sei que todos pedalamos o mais rápido que podemos. Por sorte foi só o susto, e que susto.

SÃO PEDRO

Já passavam das 19 horas quando, finalmente, chegamos a próxima cidade. Em São Pedro fizemos um lanche rápido e seguimos viagem. Lembro que, inicialmente, imaginava estar em casa por volta das 20h ou 21h. Mas o horário do retorno ficava cada vez mais distante. Àquela altura, já tínhamos pedalado em torno de 170km. Faltava, ainda, mais uns 70km até Extremoz. Não tínhamos tempo a perder. Voltamos a pedalar com força total (ou, pelo menos, a força que ainda tinha).

De volta a BR-226 seguimos em direção a Macaíba e lá nos despedimos do amigo Joel que havia, literalmente, iluminado nosso caminho. Passavam das 21h e o desejo era um só, chegar em casa, tomar um banho e dormir. Seguimos. Lembro de ter pensado, passando por São Gonçalo, as relações possíveis entre a história dos Mártires de Uruaçu e as Ruinas da Igreja de Extremoz. Acho que pensar nessas possibilidades históricas ajuda a ocupar a cabeça e esquecer um pouco o cansaço físico. Estávamos passando dos 200km de pedalada e, Extremoz, ficava cada vez mais longe. Chegamos no Nordestão do Igapó por volta das 22h e nos despedimos dos colegas China e Júnior, que foram para a Zona Norte.

Agora, apenas 12km nos separava de casa. Nunca pensei que do Nordestão (Igapó) para Extremoz fosse tão longe. Depois de mais de 235km de pedal, em mais de 18 horas de duração e passando por 10 cidades, enfim, de vota ao lar. Me despedi do parceiro Nivaldo na entrada de Jardins de Extremoz e segui em segurança para casa. Não tenho palavras para descrever a sensação dessa experiência única. Mas resolvi compartilhar com vocês e talvez servir de inspiração e não repetir alguns erros. Penso que, essas experiências, únicas e intensas é que dão sentido a nossa vida, bem materiais e vaidades são efêmeros. Abaixo um pequeno vídeo que conseguimos recuperar do momento da chegada ao Castelo.















domingo, 23 de maio de 2021

OPINIÃO: 100% DA CIDADE DE EXTREMOZ É FAVORÁVEL AO DESASTROSO GOVERNO BOLSONARO?

                      *O ex-presidente Fernando Collor e o presidente Jair Bolsonaro - (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)


    Essa foi a mensagem que a Câmara Municipal de Extremoz deu ao aprovar, por unanimidade, o título de cidadão extremosense ao atual presidente da república na última quinta-feira dia 20 de maio. A medida vem tendo uma repercussão bastante negativa nas redes sociais. A aprovação da honraria coincide com a realização da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) em que são apurados fatos, ações e omissões do governo federal durante a condução da pandemia. No mesmo dia prestava depoimento o ex-ministro da saúde no Senado Federal.

    O caso chama ainda mais atenção por não ter existido uma única voz contrária a se manifestar durante a votação. Após a leitura da proposição a presidente da sessão indagou os senhores vereadores se algum deles gostaria de discutir ou se posicionar sobre a proposição e, teve como resposta, longos 18 segundos de um silêncio, absolutamente, constrangedor. Como é possível acompanhar e observar no link da referida sessão, por volta dos 29 minutos do vídeo. https://www.youtube.com/watch?v=JK2RGzfQrK0&t=1744s

    Será que esse tipo de iniciativa é realmente prioridade para a cidade de Extremoz? Talvez a cidade não tenha outros problemas ou transtornos que se preocupar, para serem enfrentados e resolvidos. Fica registrada a indagação.

    Em relação a gestão do governo federal na pandemia, três pontos já estão bastante claros e com a instauração da CPI ficaram ainda mais evidentes e documentados, são eles;

1 - VACINAS: O governo federal não teve competência para comprar as vacinas com a antecedência necessária. Contribuindo, assim, para o número escandaloso de mortes. O argumento de legislação pré-existente já foi tecnicamente refutado.

2 - MEDICAMENTOS: A prescrição de medicamentos sem eficácia científica comprovada como forma de tratamento precoce. Como o governo defende, ainda hoje, o tal tratamento precoce não cabe nem comentar.

3 - OXIGÊNIO: Crise do oxigênio que levou ao colapso o sistema de saúde de Manaus. Aqui temos um dos momentos mais graves na falha condução da pandemia. Responsabilidades precisam ser apuradas.

    O fato é que o resultado do conjunto de todos esses fatores já levou a morte de quase 450.000 mil brasileiros e brasileiras. São parentes e entes queridos que não voltarão para os braços dos que ficaram. Resta a saudade, o vazio e a dor da perda.

    Para além de querelas políticas e ideológicas que ninguém aguenta mais - acredito que a população espera outro tipo de atuação de seus representantes no poder legislativo municipal. Ou, talvez, tenham esquecido que não foram eleitos para falar em nome próprio, e sim, de seus eleitores. Aqui, fica um singelo apelo, para que respeitem seus eleitores e possam consultar e ouvir o que pensa a população, antes de falar por ela. A população precisa ser respeitada e acima de tudo - representada!

    Em outras cidades proposições semelhantes têm causado polêmica. A grande repercussão negativa tem levado algumas casas legislativas a se arrependerem e pleitear o cancelamento da concessão do título de cidadão para o presidente. Como é o caso da Câmara Municipal de Iguatu no Ceará, uma cidade com mais de 100.000 mil habitantes. Há duas semanas, os parlamentares aprovaram a honraria, e após a repercussão negativa, alguns vereadores desistiram do voto e pedem a revogação da honraria.  https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2021/05/07/bolsonaro-ganha-titulo-de-cidadao-de-iguatu--vereadores-se-arrependem-e-agora-querem-cancelar-honraria.html

    Convido os leitores dessa coluna a manifestar sua opinião sobre o ocorrido essa semana em Extremoz. Desde já agradeço sua valiosa participação respondendo uma simples pergunta e registrando no link abaixo:

Consulta Popular:

Você é favorável a iniciativa da Câmara Municipal de Extremoz em aprovar requerimento que concede o título de cidadão extremozense ao presidente da República J. Bolsonaro?

https://forms.gle/x2HC8edWwtnUmFUx6

 

                                             

domingo, 9 de maio de 2021

EXTREMOZ: UMA HISTÓRIA SILENCIADA

 

                                * Imagem: acervo pessoal (nada como pedalar pela nossa história)

Apesar da sua rica e apaixonante história, Extremoz, ainda não teve o devido reconhecimento dentro da produção historiográfica potiguar. Assim, bem sabem, os que se aventuram em tentar juntar os “pedaços” de sua fragmentada história. Como sabemos, a busca incessante pelas fontes é um dos principais atributos dos historiadores. Nesse ponto, as fontes acadêmicas e historiográficas disponíveis para consulta e difusão são escassas e exigem paciência e habilidade para o pesquisador iniciante. Clássicos, livros, artigos, pesquisas sólidas, produções acadêmicas, conferências, arquivos avulsos, documentos manuscritos, arquivo histórico, legislações diversas, documentários, produções de caráter audiovisual, entre outras tantas possibilidades de, não apenas, preservar a memória, mas, sobretudo, dar vida a essa história e fazer com que esse patrimônio cultural e histórico esteja, de fato, integrado ao nosso cotidiano. Fazendo, assim, que o nosso povo tenha orgulho de sua história.

Na clássica historiografia do Rio Grande do Norte, a saber, autores como Tavares de Lyra, Rocha Pombo e Câmara Cascudo, apresentam de forma rica e detalhada o papel da então Capitania do Rio Grande ao longo do período colonial, imperial e republicado. Episódios como a chegada dos jesuítas, presença dos holandeses, massacres de Cunhaù e Uruaçu, guerra dos bárbaros, resistência indígena, escravidão, independência, interventorias, ditadura, eleições e redemocratização podem ser pensados e trabalhados à luz de diversos eventos, personagens, documentos, correspondências oficiais, entre outros tantos elementos históricos, antropológicos, sociológicos, arqueológicos, etnográficos e religiosos circunscritos ao longo da história de Extremoz. Seja considerando os aspectos legais e históricos que envolveram seu aldeamento, a própria construção de sua igreja matriz, a presença e o papel dos holandeses, os supostos tesouros escondidos, a fundação da primeira vila em 1760, o espolio dos jesuítas, os “famosos” sonhos de Joaquim Honório, ou ainda, suas muitas lendas presentes em obras como Câmara Cascudo e Gumercindo Saraiva, mas não só.

Extremoz conta uma história que parece ter sido silenciada com o passar dos anos. Espécie de abandono secular. Como dizia D. José Pereira Alves (1928) sobre a solidão histórica de Extremoz. Limitando-se a memória de alguns e que ainda aguarda o momento para ser “descoberta” e ter a atenção historiográfica devida.  Alguns poucos, por iniciativa própria e, em alguns casos, de forma superficial, lutam - como podem - para preservar e tentar manter alguma memória viva. Trabalhos historiográficos que fazem referência a Extremoz são poucos, dentre os quais podemos destacar os trabalhos publicados por; Marcgrave (1643), Golijath (1665), Pizarro e Araújo (1822), Costa Pereira (1834) e Milliiet Adolple (1845). Bem verdade que para melhor entender o contexto etnográfico acerca de hábitos e costumes no Nordeste e na capitania dos séculos XVII e XIX autores como Henry Koster (1942) juntamente com Pierre Moreau e Roulox Baro (1979) são fundamentais, sobretudo, na compreensão de aspectos relacionados aos nativos, detalhadamente descritos em seus relatos. Mais recentemente, destacamos; Câmara Cascudo (1940), Gumercindo Saraiva (1984), Sylvia Porto Alegre (1994), Dionice Silva (1997), Olavo Medeiros (1998), Julie Cavignac (2003), Fátima Martins Lopes (2005) e Simone Souza (2020). Obras que apresentam elementos importantes e fundamentais, mas ainda de forma insuficiente, deixando um campo aberto para a produção da pesquisa acadêmica e de interesse historiográfico sobre a antiga Guajiru.

Em relação as supostas riquezas existentes na igreja, Cascudo (1940) não acredita que havia. Afirma que “Extremoz nunca poderia ter riqueza. O aldeamento era diminuto. A terra pobre. A capitania paupérrima. (...) Não há lembrança de igreja rica”.  Então, como explicar a existências de tantos relatos de tesouros perdidos e escondidos, se não por meio de lendas? Apenas uma provocação histórica a ser trabalhada pelos que estiverem dispostos. Muitos elementos históricos carecem de maior atenção e exprimem a possibilidade de problematizarmos diversas questões acerca da importância historiográfica de Extremoz. Um exemplo simbólico e trabalhado de forma detalhada na obra de Paulo Herôncio (1937) é o tema dos massacres ocorridos no ano de 1645 em Cunhaú e Uruaçu liderados pelo alemão Jacob Rabbi. Um personagem central na trama que envolve a presença holandesa no Rio Grande em meados do século XVII. Segundo o historiador Olavo Medeiros, Rabbi, chegou a viver com uma nativa, chamada Domingas, num sítio de sua propriedade, chamado "Ceará". Ainda, segundo o historiador "o sítio corresponde atualmente à localização denominada Araça, ribeira do Ceará-Mirim entre Massagana e Estivas, e mesmo ao norte da cidade de Extremoz". Como esse, existem muitos outros episódios intrigantes e que aguardam para serem, não apenas narrados, mas, fundamentalmente, serem, descobertos, trabalhados e problematizados por estudiosos, pesquisadores e historiadores dispostos, assim, talvez, possamos amenizar esse silencio e solidão presentes há muito tempo na história de Extremoz.

 


sexta-feira, 9 de abril de 2021

VACINA: SUA HISTÓRIA E IMPORTÂNCIA

 

Imagem: r7.com

As vacinas são fundamentais para a prevenção e o combate a inúmeras doenças, como as causadas por vírus e bactérias. Descoberta ainda na Inglaterra do final do século XVIII e chegando ao Brasil no início do século XIX, a primeira vacina registrada foi a da varíola, descoberta pelo médico inglês Edward Jenner, que, ao observar um grupo de pessoas que ordenhavam vacas, constatou-se, não adoecerem por já estarem imunizados com a varíola bovina. Por isso mesmo, o termo vaccinae, ou seja, derivado da vaca, ou simplesmente, vacina. Seus estudos foram publicados em 1798 com o nome de “Um Inquérito Sobre as Causas e os Efeitos da Vacina da Varíola”, afirma a autora, Vanessa Santos, em história da vacina.

Apesar dos incontestáveis benefícios trazidos pelas vacinas, como a erradicação de algumas doenças e o controle de muitas outras, a relação da população com as medidas de imunização nem sempre foram amigáveis. O caso mais célebre, no Brasil, ocorreu durante a chamada Revolta da Vacina no Rio de janeiro, então capital do país, em 1904, durante o governo de Rodrigues Alves. Quando a população reagiu contra a lei de obrigatoriedade da vacina para o tratamento da varíola. Evidente que existe um contexto histórico que não cabe nessa modesta coluna. A falta de informação e o desconhecimento sobre o funcionamento da vacina agravaram o problema. Segundo a historiadora Juliana Bezerra, a cidade sofria de doenças fatais como varíola, peste bubônica e febre amarela. A falta de saneamento básico e lixo nas ruas eram algumas das causas.

Segundo artigo publicado pela FioCruz, sobre a história das campanhas de vacinação no Brasil, o Código Nacional de Sáude foi publicado em 1961, estabelecendo normas gerais sobre a defesa e proteção da saúde. Iniciando campanha de vacinação contra a poliomielite. Em 1962, tivemos campanha nacional contra a varíola, tendo como resultado positivo à erradicação da doença já em 1981. Outro resultado excelente foi à erradicação da poliomielite em 1989, com certificação internacional em 1994. Em 1990 tem início a campanha contra o Sarampo. Fica o alerta para a população procurar se vacinar e não depender apenas das campanhas nacionais, que são necessárias, mas insuficientes.

A Dengue e o HIV estão entre as vacinas mais esperadas e ambas estão em ritmo acelerado de pesquisa e tem mostrado estudos promissores. Um dos obstáculos para seu pleno desenvolvimento seriam as implicações de ordem política e econômica, por se trata de doenças prevalentes mais em países pobres, assim, não teria muito interesse econômico por parte da indústria farmacêutica, afirma a FioCruz.

Apesar de pequeno, existem grupos que são contra as vacinas. Alguns dizem não confiar e temem supostos efeitos colaterais. Segundo o infectologista, Alberto Chebabo, da UFRJ, esse comportamento levou a baixa procura de algumas vacinas e teve como principal consequência a volta de doenças já erradicadas como a poliomielite e o sarampo. Outro argumento utilizado pelos chamados grupos antivacina é que ela não seria necessária por não “verem” a doença em ninguém. O que na verdade é a prova da eficácia do imunizante. Infelizmente os recentes surtos e a volta de doenças já erradicas é a demonstração do equívoco desses grupos. A solução passa pelo aumento das campanhas de vacinação e mais informação sobre seu funcionamento.

Em relação a COVID-19, por meio de acordos de cooperação mundial, existem muitos fabricantes produzindo o imunizante. Infelizmente, em função da gravidade da pandemia, não dispomos de vacinas em quantidade suficiente. O que aumenta nossa responsabilidade em se conscientizar e tomar a vacina logo que possível e respeitando a fila dos grupos prioritários. Apesar da lentidão na vacinação, em número proporcionais o Brasil ocupa a posição 73º do ranking internacional (segundo publicação do portal UOL de, 8 de abril 2021), vamos torcer para que a população seja imunizada o quanto antes.


sexta-feira, 2 de abril de 2021

INSEGURANÇA ALIMENTAR: BRASIL, GRANDE PRODUTOR DE ALIMENTOS SOB O FANTASMA DA FOME

                                                                Fonte: jornalpolopaulistano.com.br

A insegurança alimentar pode ser definida como uma privação grave ou severa no acesso aos alimentos, podendo ser leve, moderada e grave, chegando a fome. Estudos publicados pelo IBGE mostram que houve um aumento significativo nesse fenômeno, sobretudo, nos anos de 2017 e 2018. Ou seja, antes mesmo da pandemia o problema já batia à porta e com atual cenário pandêmico os números chegam a níveis preocupantes. Como é possível termos milhares de famintos sendo um dos maiores produtores de alimentos do mundo?

            Para entendermos o comportamento do fenômeno da insegurança alimentar no Brasil podemos verificar, segundo dados do IBGE em estudo sobre a análise da segurança alimentar no Brasil e publicado pela Agência Brasil, que entre os anos 2004 e 2013, o número de domicílios brasileiros que alegavam estar em segurança alimentar subiu de 65,1% para 77,4%. Enquanto nos anos pesquisados, 2017 e 2018, esse número havia caído para 63,3%. Significa que, em 2018 tivemos mais pessoas sofrendo de insegurança alimentar que em 2004. Em números absolutos, estamos falando de 84,9 milhões de pessoas que alegavam viver com algum grau de inseguranças alimentar em seu domicilio. Sendo 10,3 milhões em situação grave. Importante pontuar que falamos do momento anterior a pandemia, que sem dúvida, agravou bastante o cenário.

            Segundo o economista Marcelo Neri, diretor da fundação Getúlio Vargas, em matéria no Correio Braziliense de janeiro de 2021, em comparação com outros 150 países, o Brasil caiu do 36º lugar em 2014 para 82º lugar em 2019 no número de pessoas com dificuldades para se alimentar. Entre os fatores que são apontados como causa para o agravamento desse cenário estão o aumento do desemprego, a redução dos programas sócias, o fim da política de valorização do salário mínimo, o aumento da informalidade, entre outros. Aponta alternativas para o enfrentamento como uma reforma tributária com mecanismo regressivos, taxação dos super-ricos e dos lucros e dividendos.

Estudo do Dieese, publicado em matéria do El Pais em janeiro de 2021, aponta que o salário mínimo tem o menor poder de compra desde 2005. E ainda que, em 2020, enquanto a inflação acumulada foi de 4,52%, a alta dos alimentos acumulou 14,09%. O que evidencia a constante desvalorização do real. Isso tem como consequência, entre outros fatores, a opção dos grandes produtores em exportar seus alimentos em função de um dólar favorável. Aumentando a pressão na alta dos preços para uma população com o poder de compra cada vez menor. Assim, temos o aumento no preço dos alimentos e ainda o fim da política de valorização de salário mínimo como fatores que agravam o problema da insegurança alimentar.

PENSANDO ALTERNATIVAS

Segundo a pesquisadora e nutricionista Tais Alpino (Fundação Oswaldo cruz) em artigo publicado em 2020 sobre o tema da insegurança alimentar afirma que, as respostas emergências de acesso a curto prazo de alimentos por meio de transferência de renda são importantes, mas, ações de médio e longo prazo que garantam o direito constitucional à alimentação são imperativas e urgentes. Afirma que “é necessário pensar, discutir e formular políticas públicas nacionais que tenham como base a economia e a proteção social. ” Chama atenção a interrupção e redução do auxílio emergencial, como a redução do orçamento do programa Bolsa Família que caiu de 32 bilhões em 2019 para 29 bilhões em 2020 – ano pandêmico por parte do governo federal.

Para a professora do departamento de Serviço Social da UFSC, Dra. Sirlândia Schappo, em seu artigo publicado já em 2021 sobre a fome em tempos de pandemia afirma que os processos geradores da fome antecedem, e são anteriores, porém agravados pela pandemia. Aponta como causa para esse agravamento, a crise econômica iniciada em 2014 e aprofundada em 2016 com as medidas de austeridade, assim como a redução de políticas sociais, de programas de transferência de renda, e ainda, a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, em 2019.

Lembra, ainda, que para enfrentar o problema da insegurança alimentar e da fome, exige esforços conjuntos e articulados com respeito à participação da sociedade, especialmente na elaboração de planos e estratégias, assim como exigir a responsabilidade dos governos na sustentação da renda, na efetivação de direitos, nos investimentos e nas políticas públicas. Algumas medidas urgentes com esse propósito são apontadas tais como, o fortalecimento da agricultura familiar, revogação da emenda 95, efetivação de políticas de renda básica, e ainda, a reinstalação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, entre outras ações possíveis. Argumenta que, Diante deste cenário, tornam-se urgentes medidas que visem combater a fome e a insegurança alimentar, evitando-se que situações de calamidade transitórias se tornem permanentes ou ampliem ainda mais os quadros de fome endêmica na população brasileira.

 

sexta-feira, 26 de março de 2021

TRANSPORTE PÚBLICO NO CONTEXTO DA PANDEMIA

 

*Foto: Rivaldo Gomes / Folhapress

Apesar de ser considerado um direito social garantido pela constituição, em seu artigo 6º, o transporte público continua não atendendo de forma satisfatória a população, que necessita do serviço. Umas das consequências dessa insatisfação é a redução do número de usuários. Essa tendência já vem sendo percebida antes mesmo da pandemia, o atual cenário agravou um problema já existente.

Em matéria publicada em agosto de 2019 pelo Diário do Transporte já constava que “cada vez menos pessoas estão usando ônibus urbanos no Brasil”. Segundo a série histórica, comparando 2019 e 2018, houve uma queda de 4,3% no número de usuários, ou seja, 12,5 milhões de passageiros a menos. Entre 2013 e 2017 a queda soma os 25% da demanda. O estudo aponta como as principais causas dessa redução; falta de infraestrutura, falta de linhas, tempo de espera, valor da tarifa e o surgimento dos motoristas por aplicativo.

Evidente que com a pandemia essa situação só podia piorar, e não deu outra. Como pano de fundo para o problema da superlotação, em meio ao momento mais dramático de disseminação do Coronavírus, existem alguns agravantes e gargalos que já são conhecidos de longa data e dificilmente são discutidos a sério. Entre esses fatores podemos destacar as falhas nos contratos de concessão e suas distorções, tendo como agravante o sistema de remuneração das empresas que ocorre em função da quantidade de passageiro transportado e não pelo custo da operação. A consequência não é difícil de imaginar e fácil de ser “sentida” entre um empurrão e outro dentro dos ônibus cada vez mais lotados que o usuario precisa enfrentar diariamente, e agora, com o agravante da pandemia, correndo risco de contaminação, enquanto a vacina não estiver disponível para todos.

No atual cenário pandêmico a redução de usuários no país, segundo a CNT, ficou na casa dos 40%. Em outras localidades como a região metropolitana de Goiânia esse número chegou a 48%. Importante lembrar que o transporte público é indispensável e apesar dessa redução, muitas pessoas não possuem veículo próprio e não podem trabalhar remotamente. O que torna o tema central no debate público.

O QUE PODE SER MELHORADO?

            Segundo o portal mobilize.org, são necessárias políticas públicas destinadas a qualificar o sistema de transporte. Medidas que envolvam mais transparência por parte de empresários e gestores públicos, qualificação da infraestrutura para o transporte público e, sobretudo, pensar o transporte como instrumento de desenvolvimento social, entre outras ações. Ainda em busca de alternativas que viabilizem a melhora na prestação do serviço, o especialista em mobilidade Adamo Bazani, aponta, entre outras ações, para a necessidade em rever as falhas nos contratos de licitação, ampliando a forma de financiamento do sistema.

Na capital potiguar, os estudos para a licitação ocorrem, pelo menos, desde 2006 e até agora nunca houve a licitação de transporte coletivo. O exemplo da capital seria fundamental para toda a região metropolitana, a exemplo de Extremoz, Parnamirim, São Gonçalo, Macaíba.

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