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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Jussiara Soares: entre o cordel, a memória e o encantamento

 

Jussiara Soares: poeta e escritora

O lançamento de um novo livro nos convida a olhar para a trajetória de uma escritora que tem transformado histórias em pontes entre a cultura, a educação e a memória potiguar.

Por Leandro Soares

Existem autores que escrevem para entreter. Outros escrevem para registrar. Há ainda aqueles que, sem alarde, transformam a literatura em um espaço de encontro entre pessoas, histórias e memórias. Ao observar a trajetória da escritora e cordelista Jussiara Soares, é impossível não perceber essa última vocação.

O lançamento de A Árvore e a Formiguinha, sua mais recente obra infantil, oferece uma oportunidade especial para revisitar uma caminhada construída ao longo dos anos com sensibilidade, compromisso cultural e amor pelas palavras. Mais do que celebrar um novo livro, é um momento para reconhecer uma autora que vem contribuindo para a valorização da literatura e da cultura popular no Rio Grande do Norte.

Natural de Areia Branca e formada em Pedagogia, Jussiara encontrou na escrita uma forma de dialogar com o mundo. Mas sua literatura não nasceu apenas da vontade de contar histórias. Ela parece surgir de algo mais profundo: o desejo de preservar aquilo que merece ser lembrado.

Talvez por isso sua produção transite com tanta naturalidade entre a infância, a memória, a identidade cultural e a valorização de personagens que, muitas vezes, permanecem fora dos grandes registros históricos.

Ao longo dos anos, sua atuação esteve ligada a importantes espaços de promoção da literatura, entre eles a Casa do Cordel, a Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte (SPVARN), a Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP) e o grupo Encantadores de Histórias de Extremoz. Mais do que vínculos institucionais, esses espaços ajudaram a moldar uma autora comprometida com a circulação das histórias e com a formação de leitores.

A experiência acumulada na Casa do Cordel, onde atuou durante anos na coordenação de projetos culturais, contribuiu para ampliar sua compreensão sobre o papel social da literatura. Não se trata apenas de publicar livros, mas de criar oportunidades para que a palavra alcance pessoas, desperte curiosidades e fortaleça identidades.

Amanda Gurgel, Jussiara Soares e Franklin Capistrano

O reconhecimento desse trabalho também se manifestou em espaços institucionais. Em 2016, por ocasião das celebrações do Dia do Cordelista, Jussiara Soares recebeu homenagem na Câmara Municipal de Natal, em solenidade conduzida pela vereadora Amanda Gurgel. Mais do que uma distinção individual, a homenagem representou o reconhecimento de uma trajetória já marcada pelo compromisso com a literatura popular, a cultura potiguar e a valorização do cordel como expressão artística e educativa.

Essa preocupação aparece de maneira recorrente em sua obra.

Quando participou da coleção Dez Mulheres Potiguares, por exemplo, Jussiara ajudou a lançar luz sobre trajetórias femininas que contribuíram para a construção histórica e cultural do estado. Mais do que narrar biografias, seu trabalho colaborou para que essas mulheres continuassem presentes na memória coletiva.

Leandro Soares e Jussiara Soares lançamento da coletânea Dez Mulheres

Foi nesse contexto que produziu o cordel dedicado à poetisa extremozense Áurea de Góis, tornando-se a primeira autora a registrar sua trajetória nesse formato literário. O gesto possui um significado que vai além da homenagem individual. Trata-se de um ato de preservação da memória cultural, especialmente em tempos em que tantas histórias correm o risco de serem esquecidas.

Lançamento da coleção - Dez mulheres potiguares

O mesmo pode ser dito de seu trabalho sobre a Viúva Machado, outra personagem feminina que encontrou na literatura um caminho para permanecer viva no imaginário potiguar.

Ao observar essas escolhas, percebe-se um traço marcante da escrita de Jussiara: sua atenção às histórias que merecem ser contadas. Mas sua contribuição não se limita ao passado.

Em obras voltadas ao público infantil, a autora demonstra igual preocupação com os desafios do presente. Em O Presente, seu primeiro livro solo, abordou com sensibilidade questões relacionadas ao preconceito racial, à autoestima e à valorização da identidade negra. A repercussão da obra junto a educadores e leitores revela a força de uma literatura que não abre mão da delicadeza, mas também não se afasta dos temas essenciais à formação humana.

Talvez resida aí uma das características mais bonitas de sua produção: a capacidade de unir encantamento e reflexão.

Suas histórias não procuram apenas transmitir mensagens. Elas convidam crianças e adultos a enxergar o mundo com mais empatia, respeito e sensibilidade. Não por acaso, suas obras vêm sendo trabalhadas em escolas e projetos de leitura. Nesse diálogo constante com a educação, a literatura deixa de ser apenas entretenimento e assume seu papel de instrumento de formação cidadã.

A mesma autora que escreve para crianças também dedica atenção às tradições culturais do estado. Sua participação em eventos literários, congressos de cordelistas e apresentações voltadas à divulgação das lendas potiguares demonstra um compromisso permanente com a valorização do patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Norte.

Ao reunir todos esses elementos, torna-se difícil enquadrar Jussiara Soares em uma única definição. Ela é cordelista, poeta, escritora e educadora. Mas talvez essas palavras, isoladamente, não consigam traduzir o alcance de sua contribuição.

O que sua trajetória revela é a presença de alguém que compreendeu o poder das histórias. Histórias capazes de preservar memórias, fortalecer identidades, combater preconceitos, valorizar mulheres, despertar leitores e aproximar gerações.

Em uma época marcada pela velocidade da informação e pelo esquecimento cada vez mais rápido das experiências coletivas, autores como Jussiara nos lembram que recordar também é um ato de cuidado.

Novo trabalho em lançamento

Seu novo livro, A Árvore e a Formiguinha, chega como mais um fruto dessa caminhada. Não representa um ponto de chegada, mas a continuidade de uma obra construída com paciência, sensibilidade e dedicação.

Ao registrar sua trajetória, esta homenagem reconhece não apenas os livros publicados ou os projetos realizados. Reconhece, sobretudo, a importância de uma escritora que tem colocado sua arte a serviço da memória, da educação e da cultura.

Porque algumas pessoas escrevem histórias. Outras ajudam uma comunidade a não esquecer as suas.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Mais um capítulo na história da Escola Estadual Almirante Tamandaré

 

Klayta Ramalho e Betânia Valentim durante entrevista concedida para esta matéria.

Klayta Ramalho e Betânia Valentim iniciam um novo ciclo à frente da Escola Estadual Almirante Tamandaré, instituição que há 44 anos integra a história da educação em Extremoz.

A história da Escola Estadual Almirante Tamandaré se confunde com a própria história do Conjunto Estrela do Mar e com o crescimento urbano de Extremoz nas últimas décadas. Inaugurada oficialmente em 1º de março de 1982, a instituição nasceu em um contexto singular: foi construída juntamente com o conjunto habitacional criado para atender famílias ligadas à Marinha do Brasil.

Originalmente, o Estrela do Mar foi planejado para abrigar servidores civis e militares da Marinha. Na ocasião de sua inauguração, o empreendimento contou com a presença do então Ministro da Marinha, Almirante de Esquadra Maximiano Fonseca, além de autoridades estaduais e municipais.

A escola recebeu o nome de Joaquim Marques Lisboa (1807–1892), o Almirante Tamandaré, patrono da Marinha Brasileira. Segundo relatos de antigos moradores, a instituição chegou a ser administrada pela própria Marinha em seus primeiros anos de funcionamento, antes de passar à administração do Governo do Estado na segunda metade da década de 1980.

Aos 44 anos de existência, a Escola Estadual Almirante Tamandaré consolidou-se como uma das mais importantes instituições educacionais de Extremoz, formando gerações de estudantes e tornando-se uma referência para a comunidade.

                                  Registro da Escola Estadual Almirante Tamandaré nos primeiros anos de funcionamento.

Ao longo de sua trajetória, a escola acompanhou as transformações do bairro e da cidade. As fotografias preservadas pela comunidade revelam um tempo em que o Estrela do Mar ainda possuía poucas construções, ruas cercadas por coqueirais e uma população que começava a construir sua identidade coletiva.

Essas imagens não apenas registram a história da escola, mas também ajudam a compreender a própria formação urbana de Extremoz.

Desfile cívico realizado em 1983.

Mais de quatro décadas após sua fundação, a Escola Estadual Almirante Tamandaré inicia uma nova etapa de sua história com a posse da diretora Klayta Ramalho e da vice-diretora Betânia Valentim.

Mais de quatro décadas após sua fundação, a Escola Estadual Almirante Tamandaré inicia uma nova etapa de sua história com a posse da diretora Klayta Ramalho e da vice-diretora Betânia Valentim. Para conhecer melhor as expectativas para este novo ciclo, conversamos com as gestoras sobre os desafios, prioridades e perspectivas para a comunidade escolar.

Klayta Ramalho: participação, inclusão e transparência

Para Klayta Ramalho, assumir a gestão da escola representa um grande desafio, mas também uma oportunidade de crescimento e aprendizado.

Segundo ela, as prioridades da nova gestão serão o fortalecimento da inclusão, a ampliação da participação da comunidade escolar e a construção de uma gestão pautada pela transparência.

“Queremos uma escola mais participativa, onde estudantes, famílias, professores e servidores compreendam que todos fazem parte desse processo.”

Ao falar sobre o que a motivou a assumir a direção da escola, Klayta destacou o incentivo recebido de pais, estudantes e colegas professores.

“Foram os próprios estudantes, as famílias e os professores que me fizeram acreditar que eu poderia contribuir ainda mais para a escola e para a comunidade.”

A diretora também ressaltou que o objetivo da gestão é fortalecer o sentimento de pertencimento.

“A escola é feita por todos. Queremos uma escola mais leve, mais participativa e mais inclusiva.”

Betânia Valentim: compromisso com a educação pública

Para a vice-diretora Betânia Valentim, assumir a gestão da Tamandaré representa um compromisso com a educação pública e com a história da instituição.

Entre as prioridades apontadas por ela estão a aprendizagem dos estudantes, o acolhimento e a inclusão, especialmente dos alunos com necessidades educacionais específicas.

“O que mais me motiva é contribuir para a formação dessas crianças e desses jovens, pensando na melhoria da qualidade de vida futura deles e de suas famílias.”

Betânia também destacou a importância do trabalho coletivo.

“Nosso compromisso é desenvolver ações que contemplem todos os segmentos da escola, respeitando as necessidades de cada um e fortalecendo o trabalho em equipe.”

 

                                                       Desfile cívico realizado em 1983. Acervo da família Cabral.

Uma história que continua

As imagens dos primeiros anos da escola mostram estudantes desfilando pelas ruas ainda cercadas por sítios e áreas pouco urbanizadas. Hoje, a paisagem mudou. Extremoz cresceu, novos bairros surgiram e a escola tornou-se uma das principais referências educacionais da cidade.

Entretanto, algo permanece inalterado: a missão de educar.

A chegada da nova gestão representa mais uma etapa de uma trajetória iniciada em 1982. Uma história construída por estudantes, professores, servidores, famílias e gestores que, ao longo de 44 anos, ajudaram a transformar a Escola Estadual Almirante Tamandaré em um patrimônio afetivo da comunidade.

Como toda instituição viva, a escola segue se renovando sem perder suas raízes. E assim, entre memórias preservadas e novos desafios, a Tamandaré continua escrevendo sua história. Porque a história da Escola Estadual Almirante Tamandaré continua sendo escrita todos os dias.

Fontes e agradecimentos

A pesquisa histórica utilizada nesta matéria reúne informações publicadas anteriormente pelo projeto Pedalando na História, registros do jornal Diário de Natal de 1982 e documentos relacionados à fundação do Conjunto Estrela do Mar e da Escola Estadual Almirante Tamandaré.

As fotografias históricas foram gentilmente preservadas pela família Cabral e compartilhadas com a comunidade por meio da página Histórias de Extremoz, coordenada pelo pesquisador Ricardo Barros, cujo trabalho de preservação da memória local tem contribuído significativamente para o conhecimento da história do município.

Texto e pesquisa histórica: Leandro Soares @pedalandonahistoria1


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